João Pimenta: “No Barreiro, há muito bom gosto musical”

Em vésperas da segunda edição do Galo Negro Fest, estivemos à conversa com João Pimenta. Tatuador há mais de 20 anos, mas também ilustrador, cenógrafo, designer e, mais recentemente, programador musical, no festival que o próprio criou para ver bandas de que gosta.

Nasceste no Barreiro em 1974. Como é que foi a tua infância aqui na cidade?

Vivi sempre na Verderena e passava os dias a jogar à bola quando era miúdo. Depois, a partir aí dos 16 anos, comecei a sair à noite, no Barreiro Velho, que na altura tinha uma noite mágica. Apanhei esses anos fantásticos da noite barreirense.

E quando é que surgiu o interesse pelo desenho?

Eu sempre desenhei, desde puto, mas foi ali na altura de entrar para o secundário, e para fugir à matemática, que entrei para humanidades. No final do ano, ou até a meio do ano talvez, houve um professor, que acho que era o de Filosofia, que chamou a minha mãe à escola e disse-lhe: “O João assim não vai lá. Temos de mudar aqui a estratégia. É melhor ele ficar o resto deste ano em casa e no próximo ano entra para artes”. Porque eu passava a vida a desenhar. E assim foi, depois a coisa já correu melhor. Mas mesmo aí nunca pensava que o desenho podia ser uma saída profissional.

E quando é que percebeste isso?

Foi quando entrei para um estúdio de animação. Tive lá quatro anos a fazer filmes de animação mas depois aquilo fechou. Por consequência disso, tive um amigo meu que me desafiou para aprendermos a fazer tatuagens. Fomos para Espanha fazer um curso e acabámos por ficar lá uns tempos a trabalhar. Quando regressei, fui trabalhar como paginador de uma revista, e a tatuagem ficou um bocado parada, ia fazendo a uns amigos mas nada de muito sério. Entretanto, um amigo meu diz-me que estão à procura de malta na Atomic, que era um estúdio de tatuagens em Lisboa. E tive lá 14 anos a trabalhar. Ao fim desse tempo, a loja fechou no Chiado, onde estávamos, e foi para o Saldanha, já com outro formato. Mas na mudança de espaços, que ainda demorou uns três meses, e como estava sem trabalho, comecei a tatuar aqui no Barreiro, mais concretamente, onde hoje é o Aureabox. Já era um ginásio na altura e arranjei uma salinha lá para fazer umas tatuagens. Passado pouco tempo, o João Marujo desafiou-me para abrir um espaço nosso. Eu, que sou um bocado péssimista nestas coisas, disse-lhe que se arranjasse um sítio, eu alinhava, achando que a coisa ia demorar e cair no esquecimento. Não demorou nem um mês. Ligou-me a dizer que já tinha arranjado um sítio. E assim foi, ia dividindo o tempo entre aqui e Lisboa. Gradualmente, comecei a ter mais trabalho aqui do que em Lisboa. Isto foi em 2016, por isso já aqui estou no estúdio há 10 anos.

Porquê Galo Negro?

Eu sempre gostei muito do imaginário do Dia de los Muertos, voodoo, por aí. Depois fui desenvolvendo o conceito em torno disso, com toda a decoração do espaço, e mesmo nas redes sociais, durante algum tempo, só aparecia mascarado. É brincar com esse imaginário.

Além da tatuagem, também estás envolvido com o teatro e a música. 

Sim, desde 2008 que colaboro ativamente com o ArteViva. Tenho feito os cenários para muitas das peças. Além do cenário, também desenvolvo a imagem da peça, para o cartaz e outros materiais gráficos. Na música, tenho feito muitas capas de álbuns. E tudo começou de forma engraçada: uma das minhas bandas favoritas é os The Flaming Sideburns e vieram tocar a Portugal. Eu adoro-os, fui vê-los ao vivo, e falei com amigos meus com editoras para tentar colaborar com a banda. Passado uns anos, lembraram-se de mim e convidaram-me para fazer a capa de um disco para eles. Isto permitiu-me fazer umas três capas para eles, conhecê-los e ainda começar a fazer capas para outras bandas da Escandinávia, porque eles sao da Filândia. Também faço alguns trabalhos para bandas portuguesas, como os Sinistro ou Besta, mas também já fiz coisas de black metal.

Esse gosto pela música, veio também da noite barreirense?

É engraçado porque o Barreiro tinha um pouco de tudo, era muito diversificado na oferta musical na noite. Tinhas boas discotecas de música eletrónica, sítios com bons DJs. Vinha imensa gente de Lisboa para sair no Barreiro a noite toda. Na mesma rua, tinhas uns 20 sítios diferentes com boa música e muita variedade. E havia espaço para todos, para os metaleiros, para os góticos, para tudo. Eu ia muito à Gare, que era explorada pelo Eduardo Quaresma, e tinha lá muitos concertos, todas as bandas daqui tocavam lá. Acho que foi assim o primeiro sítio onde existiam concertos regulares de música mais alternativa. Outro marco importante aqui na terra era a loja de discos do Manel, onde se ouvia muita música e muita gente descobriu grandes bandas ali. No geral, acho que há muito bom gosto musical aqui no Barreiro. A malta faz boa música.

Passados uns 30 anos, criaste o teu festival, que teve a primeira edição no ano passado. Como é que isto aconteceu?

Nós quando viemos aqui para o estúdio, começámos a ter ideias para dinamizar isto e não ser só um sítio para fazer tatuagens. Aos fim-de-semana, começou a juntar-se aqui muita malta que vinha beber um copo e ouvir música. Entretanto, como muito do pessoal que vem aqui tem bandas, começaram a desafiar-nos para tocar aqui à porta, ainda por cima a rua é só pedonal. E assim foi, fomos fazendo uns concertos e uns eventos. Houve um dia, que o Ricardo, dos Besta, que tem sido o meu braço direito no festival, tal como o Marujo aqui no espaço, que  mostrou vontade de ajudar-me na parte técnica. E eu tenho feito a programação. É um festival de amigos para amigos, correu bem a primeira edição, vamos agora ter a segunda.

E o que temos este ano no Galo Negro Fest?

Temos um belo cartaz. A começar pela Nicotine’s Orchestra, do grande Nick Nicotine, fundador do Barreiro Rocks, que é o meu festival favorito de sempre. Temos também os Destroços e os The Brooms, duas bandas da terra, mas temos também bandas estrangeiras, como os Ultra World e Ptolomea, ou de outros sítios do país, como os Baleia Baleia Baleia ou os Redemptus. Vai ser bom.

Begin typing your search term above and press enter to search. Press ESC to cancel.

Back To Top