O Barreiro Rocks 2025 está cada vez mais perto, e não podíamos deixar de falar com um dos fundadores do festival. Carlos Ramos, também conhecido por Picos e muitas outras alcunhas e nomes artísticos, contou-nos como se deu este regresso do festival, planos para o futuro e até algumas novidades.
Sete anos depois, o Barreiro Rocks está de volta. Como é que isto foi possível?
Depois daquele interregno, aconteceu muita coisa, quer a nível pessoal, como até no mundo, a começar pela pandemia, que causou um abrandamento de tudo. Houve, também, uma reorganização na Hey Pachuco!, com mais pessoal a entrar, a malta ligada aos Humana Taranja e Walter Walter, que logo após a pandemia organizaram o Chamem os Amigos Fest, que teve várias edições, e criaram uma programação regular de concertos na Sala 6, que tem sido o espaço onde temos programado mais. E de repente, começamos a aproximar-nos desta data dos 25 anos do festival, e pensei que podia ser um bom ano para fazer, mais que não fosse, uma edição comemorativa. Falei com o Município do Barreiro e chegamos a um acordo para fazer esta edição e retomar mesmo o festival. Acho que agora temos uma estrutura mais cimentada de pessoal e melhores condições para retomar a coisa. Isso e muita malta a melgar-me o juízo para o festival voltar. É um evento que é querido pela malta.
Quando o festival parou, em 2019, foi mais pela questão financeira ou também por essa parte de estrutura e pessoas?
Foi muito a parte financeira, fomos perdendo meios ao longo dos anos. Foram várias edições a entrar com dinheiro sem saber se o iríamos recuperar. Não víamos maneira de o festival entregar alguma coisa com qualidade com aquelas condições. Agora, sentimos que temos condições para, pelo menos, regressar a um festival anual com alguma qualidade, sendo que, esta edição, começou a ser trabalhada já muito em cima e neste momento já estamos a trabalhar na próxima edição, com datas e artistas confirmados.
Que não podes revelar…
Que não posso revelar, ainda. Mas sendo esta a edição comemorativa dos 25 anos quisemos chamar todos os amigos. É uma edição quase exclusivamente composta por bandas que já tocaram no festival. E foi muito fixe sentir o carinho e alegria de fazerem parte desta edição especial. Para o ano, regressamos à programação mais habitual, com mais artistas internacionais, que estejam a emergir nesta área, no fundo, o que sempre fizemos ao longo dos anos. E também algumas daquelas glórias que enchem o olho.

Outra novidade é o espaço onde vai decorrer esta edição, que vai ser na ADAO. A mudança dos Ferroviários para aqui foi por opção ou foi por impedimento do local habitual?
Foi por opção, achei que era o que fazia mais sentido, não deixando de falar com os Ferroviários e de os envolver, porque consideramos que continuam a ser a nossa casa. A questão é que durante estes últimos anos o Vítor e Ana desenvolveram um bar espectacular que está lá montado e há toda uma dinâmica financeira no festival que tem que ver com a venda de bebidas e podia ser complicado gerir isto tudo. No entanto, são pessoas que nós estimamos e os Ferroviários é a associação que sempre nos deu espaço para tudo e a maneira que encontrámos de também marcar presença foi programar os concertos da tarde lá. Além disso, a ADAO também tem uma série de condições de produção que já estão montadas, a própria disposição do espaço ou existência de backstage. Ali nos Ferroviários nós tínhamos de inventar tudo, um palco, backstage, etc. Eu sei que era de coração mas depois eram aulas de karaté que não eram dadas, era um pavilhão que ficava ocupado durante uma semana. Achei que a melhor forma de harmonizar tudo isto era fazer na ADAO, mantendo os Ferroviários como palco secundário. E assim também nos entrosamos mais com a malta da ADAO, e sendo ali ao lado, fica tudo na mesma zona.
E a venda dos bilhetes? Como está a correr?
Está a correr bem, acho que no fim deste mês deve esgotar. Estamos a falar de 400 pessoas, mais ou menos. Juntando bandas, staff, imprensa, talvez chegue aos 500, que era o número máximo que já tínhamos nos Ferroviários.
Reparei que no dia 7, domingo, no cartaz, diz lá “Artistas Surpresa”. Continuam a ser surpresa?
Continuam sim, senhor.
E vão ser surpresa até…
Até chegarem lá, é ir no dia 7 e ver. Claro que já sei que na sexta ou sábado alguém se vai chibar mas pronto. Mas vai ser um momento de relaxe para a organização e afins, digamos assim.
Então a ideia é manter a ADAO como espaço principal durante as próximas edições.
Sim, exatamente. E posso dizer-te que já temos dois nomes, assim grandes, fechados. Por mim, logo ali depois do festival, anunciava-se, mas tenho de ver com o resto da malta.
Tens sentido que já há muita malta nova que nunca foi ao festival e que já esperavam há muito tempo por este regresso, por também terem ouvido falar bem do mesmo?
Completamente. Muitos miúdos que tinham 16 ou 17 anos e nunca foram a uma edição. E durante estes anos a malta vai-se empolgando com as histórias e assim. Mas sim, muitos putos que estão lá no TOCA, a sala de ensaios gratuita que a gente tem, que estão malucos com o festival, para eles é quase tipo Woodstock. Acho isso um piadão, mesmo. E deixa-me feliz, ver que temos massa humana para a continuação, que era algo que me preocupava.
A renovação geracional?
Como é óbvio, sim. Sejamos sinceros, o panorama musical nos últimos anos foi um bocado brutal no que toca a espaço para música ao vivo. Isso, quer queiras quer não, reflete-se nos hábitos de consumo. Mas acho que, nestas gerações mais novas, o hábito de sair para ir ver um concerto é cada vez mais algo de nicho. A minha geração terá sido das últimas mais ligada à parte da noite boémia, de ires ver concertos todas as noites, independentemente da tua onda musical. Se há menos oferta de concertos, e há mais de outras coisas, é normal que optem mais por essas coisas. Claro que continuas a ver miúdos nos concertos, mas são sempre os mesmos. A ideia que eu tenho é que na minha geração era uma coisa global, dos betos aos metaleiros, estavamos sempre a ver música ao vivo. E acho que agora esmoreceu um bocado. Mas lá está, dentro deste género de música do festival, esse nicho de público continua a existir.

Em termos de público, sabes se este ano vem muita malta de fora?
Sei que há uns quantos americanos que já compraram. Há um clássico, que eu penso que seja um irlandês que se perdeu nos barcos, para aí há 15 anos, e sem querer foi dar com o festival e passou a vir todos os anos. Muita malta de Espanha e França, também. E um bocado pelo país inteiro.
Que nomes é que ainda gostavas de trazer ao festival?
Da velha guarda, gostava de conseguir o John Spencer ou Mick Collins, dos The Gories. Adorava que os Reigning Sound viessem, mas acabaram. Ainda existem algumas coisas assim mais antigas que eu gostava que passassem por cá, mas vamos ver.
E de bandas novas? Alguma coisa na calha, que esteja aí a explodir?
Eu, aí, sempre fui mais o gajo de pôr a coisa a andar e da produção. Sempre tive rodeado de muitos bons olheiros à minha volta.
Então quem foi o responsável por quase trazer os The White Stripes ao festival?
Oh, Johnny Intense, sempre. João Cruz, olho de falcão. Para grande parte dos cartazes. Hoje em dia, temos os miúdos que consomem muita música e descobrem cenas fixes. O Álvaro, dos Conan Castro, também está sempre atento. E amigos de lojas e editoras que nos vão mostrando bandas. É uma coisa muito comunitária, muita aberta. Lembro-me que os 800 Gondomar, que eu adoro e que vêm cá este ano, tinham acabado de começar, e vieram cá para aí em 2015. E o cartaz estava quase fechado e há um tipo que faz um comentário no Facebook do festival a dizer: “então não trazem os 800 Gondomar?”. E mete lá um vídeo deles. Eu abri, curti bué, e nem demorei meia hora a fechar aquilo. Foi encontrar em contacto com eles e depois fui responder ao tipo: “já está”.
O que destacas na edição deste ano?
É um bocado cliché, mas este ano estou mesmo com pica para ver tudo. Porque é uma edição muito sentimental. Vejo amigos em toda a malta que vem aí. Gente que é muito amiga do festival e isso dá-nos um grande prazer. Claro que estou com muita vontade de ver os Los Chicos, porque são irmãos do festival, ou o Vaiapraia, porque sempre que vejo um concerto dele é incrível. Mas todos, os Sunflowers, etc. Epá, agora dizia-te o cartaz todo. Quero ver tudo, mesmo.
