Depois dos magníficos concertos em 2015 e 2017, os Sunflowers regressam este ano ao Barreiro Rocks. Conversámos com a banda sobre como é tocar neste festival, planos para o futuro e o panorama actual da música ao vivo.
Já tocaram duas vezes no Barreiro Rocks, em 2015 e 2017, e regressam agora para esta edição comemorativa do festival. Como se sentem ao serem uma das bandas selecionadas para este retorno?
Carlos: Quando começámos a banda, existiam alguns festivais que se inseriam no tipo de música que nós fazíamos. E o Barreiro Rocks era um deles, por isso, sempre quisemos tocar no festival. Ficámos muito contentes quando tivemos o primeiro convite, em 2015. Foi uma bela noite, foi algo incrível. Fizemos logo uma grande amizade com a malta da Hey Pachuco!, e fiquei muito contente assim que soube que o Barreiro Rocks ia voltar. O Picos encontrou-nos em Lisboa e disse que estava a pensar voltar com o festival e que queria que voltássemos a tocar lá. Nós dissemos logo “bora”, foi automático. Acho que nunca demos nem vi nenhum concerto mau no Barreiro Rocks. Desta vez, ainda por cima, é a primeira vez oficial com o Fred na banda.
Fred: É muito engraçado porque nessa edição de 2015 eu toquei algumas músicas com vocês.
Carlos: Sim, eras para tocar uma ou duas músicas e acabaste por fazer o set todo.
Fred: Verdade. Estava uma mística incrível durante o concerto. E essa foi a primeira vez não oficial que eu toquei com a banda. Porque eu estava lá era para tocar com os 800 Gondomar.
E a primeira vez que vieram ao festival, foi como artistas ou ainda como público?
Carlos: Nós já conhecíamos o festival de nome, mas nunca tínhamos ido como público. Fomos a primeira vez mesmo para tocar. Mas sim, o festival teve sempre grandes cartazes, tanto que a primeira vez que o Ty Segall tocou na Europa foi no Barreiro Rocks, o que é incrível. Estamos muito contentes por voltar e é um festival que vamos sempre guardar no nosso coração.
Regressam ao festival com material novo, com o lançamento deste álbum. Quem são estes Sunflowers de 2025, em comparação com aqueles que passaram cá há 10 anos?
Carlos: Mudou muita coisa. A sonoridade, mas também a nossa atitude em palco. Até porque antes eramos dois, e agora somos três, já é um tipo de concerto diferente. A nossa atitude e mentalidade também mudou bastante.
Fred: Sim, até porque quando tocámos no festival em 2015, tínhamos uns 20 anos. Agora já estamos nos 30, já muita coisa mudou entretanto.
E a nível lírico? Sentem que houve também uma evolução naquilo que escrevem? Como olham para os vossos primeiros trabalhos?
Carlos: É engraçado perguntares isso porque, às vezes, falamos disso entre nós. Eu não posso negar aquilo que fiz quando tinha 20 anos. É o meu passado musical. Claro que já não escrevemos sobre aliens, mas tentamos manter o mesmo espírito de fazer um tipo de música que gostamos de ouvir. Isso é o mais importante. E claro, a nossa visão sobre o mundo mudou, e isso reflecte-se nas letras.
Nos últimos anos, temos assistido ao encerramento de vários espaços icónicos para tocar ao vivo? Têm sentido mais dificuldade em encontrar espaços para tocar?
Fred: Com 10 anos de banda, já vimos muitos espaços a abrir e fechar. Tocámos muitas vezes no Sabotage, por exemplo, e fechou. Mas é tudo um resultado do que vivemos agora. Nós que somos do Porto, e tal como em Lisboa, sentimos essa gentrificação e o aumento de preços em tudo. Mas Portugal não é só Lisboa e Porto, e nos últimos anos, temos reparado que a melhor forma de combater a centralização é visitar o resto do país. E temos zonas desertificadas, quer a nível humano e cultural, onde é possível criar algo ali. E nós temos feito esse esforço de criar novos polos culturais fora das grandes cidades. Existe muito espaço para poder criar.
Carlos: Desde o início, sempre encontrámos sítios para tocar fora de Lisboa e Porto. Tocar nestas cidades é fixe, claro, mas tocar numa aldeia perto de Pombal também é. E é malta que tem mais dificuldade em sair dali. E cada vez vemos mais associações fora destes polos a nascer e a fazer coisas. Agora fecham uns, daqui a cinco anos abrem outras, é muito cíclico. As pessoas vão continuar a fazer coisas.
Fred: Sim, quando vamos tocar a um sítio mais isolado, temos as pessoas a agradecerem-nos imenso por ter passado ali, e termos tocado para eles. Isto tem muito valor.
Carlos: E estes concertos em cidades mais pequenas são fixes para motivar as pessoas que nos vêm a fazer também a sua cena. Foi assim que eu criei a banda, vi malta a tocar ao vivo e também queria estar ali. Então é uma forma de tentar ajudar as pessoas desses sítios a reagir e fazer alguma coisa, seja a ter uma banda ou uma loja discos.
Por outro lado, este ano, têm uma tour muito robusta pela Europa, tocando em várias capitais mas também outras cidades mais pequenas. Como têm sido recebidos lá fora?
Carlos: Foi muito fixe, mas acontece a mesma coisa que lá fora. Nas cidades mais pequenas, sente que as pessoas ficam mesmo agradecidas por estares ali. Eu lembro-me de estarmos na Bélgica, em Silly, uma aldeia no meio do nada, com umas condições absurdas. Mas ao nível assim de um RCA, em Lisboa, ou um Hard Club, no Porto. Muito boas condições mesmo.

Mas sentem que lá fora já têm muito público que vos conhece mesmo?
Fred: Nessa tour aconteceu algo muito giro. Nós fomos tocar a Kumanovo, na Macedónia do Norte, e tocámos num bar que era no rés-do-chão de um centro comercial antigo. E sempre que começávamos uma música, havia alguém no público que dizia o nome da música. E depois cantava a música toda, durante o concerto todo. Portanto, isto aconteceu na Macedónia do Norte, não foi em Braga ou no Porto. E isto é totalmente inesperado e imprevisível.
Voltando ao Barreiro Rocks, qual foi o melhor concerto que viram no festival?
Fred: Eu lembro-me do concerto dos Los Chicos, em 2017, creio, que foi do outro mundo.
Carlos: Eu não me lembro qual era o nome da banda, sei que era da Slovenly Records, e foi fantástico. Também o Rolando Bruno, no bar, esse concerto foi muito bom.
Fred: As noites no Barreiro são atribuladas. São complicadas…
Sentiram a tão famosa familiaridade do festival quando vieram pela primeira vez?
Carlos: Claro. Assim que chegas a um sítio, e és bem recebido, isso fica-te na memória. E nós sempre fomos muito bem recebidos no Barreiro.
Fred: Ainda por cima isso aconteceu numa fase muito embrionária da banda e deu-nos uma força e motivação para continuar, mostrando que existe uma comunidade com quem podes partilhar a tua cena.
Algum concerto em particular que estejam com muita vontade de ver este ano no festival?
Fred: Quero muito ver Vaiapraia, com o novo disco.
Carlos: El Señor, também. Os Pista, também vai ser bom. Algumacena, que são músicos do caraças e dão sempre grandes concertos. E acho que só falta mesmo mencionar o Chinaskee, que também vai dar um concerto incrível. É uma noite só com grandes amizades, só espero ver bons concertos.
Fotografias: Valéria Martins
