Rui Pedro Dâmaso: “Acho que este é o melhor cartaz do OUT.FEST que já tivemos”

Começa hoje o Sonica Ekrano, e o OUT.FEST arranca dentro de três semanas. Dois festivais diferentes mas com alguns objectivos em comum. Aproveitámos a chegada destes eventos para conversar com Rui Pedro Dâmaso, fundador da OUT.RA, que organiza ambos os festivais.

Dois festivais, o Sonica Ekrano e o OUT.FEST, apenas com duas semanas de intervalo entre um e outro, algo que não acontecia desde a primeira edição do Sonica Ekrano. Como tem sido gerir toda esta produção?

Por um lado, há aqui um desejo de criar um período mais longo de actividade nossa na cidade. Por outro, ainda estamos a tentar perceber qual a melhor altura para fazer o Sonica Ekrano. Talvez até no futuro sejam ainda mais perto um do outro.

Numa óptica de rentabilizar esforços a nível de produção e organização?

Sim, porque a pré-produção do OUT.FEST é muito desafiante, o mês de setembro é sempre muito trabalhoso e onde tratamos de muita coisa. Ao mesmo tempo, é o velho segredo que nós portugues ainda não descobrimos, que é se fizermos tudo com a maior antecedência possível, tudo é possível. É tudo uma questão de planeamento.

O Sonica Ekrano faz agora cinco anos. Têm sentido um crescimento do festival?

Apesar de já ser a quinta edição, eu acho que ainda sentimos que está a começar, enquanto festival. Apesar de tudo é uma aposta diferente do habitual. É verdade aque até abre um pouco o espectro estético face ao OUT.FEST, mas só isso não chega para chamar pessoas que não têm tanto o hábito de ir ao cinema. Além disso, isto é um festival de cinema de documentários sobre música, que acontece no Barreiro com dez dias de programação. E muitos desses filmes são sobre artistas ou música que pouca gente conhece. Por isso acho que este festival requer muito um trabalho de garimpar, ir atrás das pessoas e tentar reter o público. Estamos a falar de 23 sessões em dez dias, é uma agenda grande. Ainda estamos muito à procura do nosso lugar na cidade, sendo que temos conseguindo manter sempre uma certa identidade em termos de programação. E este ano todo o festival será no Teatro Municipal, que curiosamente foi construido originalmente para ser um cinema, e é uma sala confortável para ver filmes.

Este ano há também um lançamento de um livro dentro do Sonica Ekrano.

Sim, foi uma coicidência feliz. Nós, no ano passado, organizámos duas conversas sobre rap crioulo na Cooperativa Mula. Aconteceu que o Vladimir Vaz Mourão, que é da editora Urtau, mostrou interesse em documentar a transcrição destas conversas. Percebemos pelo calendário que fazia sentido lançar o livro no festival, e achamos que é sempre relevante editar livros. O papel ainda vai durar um bocadinho mais e o tema é importante, por isso faz-nos todo o sentido.

Passando para o OUT.FEST, este ano temos alguma novidade no que toca a novos espaços para os concertos?

Há algumas novidades. Temos três novos espaços e a Quinta do Braancamp. Temos o Espaço, que vai acolher um DJ set e uma instalação. Temos o atelier botânico da Ana Oliveira, que vai receber duas performances e que fica ali no eixo entre a Sala 6 e os Penicheiros, onde vão haver vários concertos. E temos a oficina Ruiforauto, que vai acolher um requiem para uma máquina de tricô. Será, certamente, algo muito especial. É entusiasmante, esta ideia de inventar salas de espectáculos. E finalmente, temos o passeio sonoro na Braancamp, que é só por inscrição, que é uma experiência de tratar a própria cidade como espaço.

O festival é cada vez mais composto por outros actos que não apenas concertos, sejam instalações artísticas, conversas ou conferências. Essa variedade visa ir ao encontro da vossa ideia de se viver a cidade durante o festival, e não apenas ir de um concerto para outro?

Sim, é um pouco isso. Mas é também nós tomarmos a consciência que aquilo que queremos é partilhar formas diferentes de ouvir música. E falar sobre ela, conversar sobre música. Há muita coisa que nos interessa para além do concerto em si, é toda a descoberta e partilha que pode vir daí. É conseguirmos reconhecer que há mais dimensões para além dos concertos. E muito do que estamos a falar aqui são momentos de entrada livre, que também servem como porta de entrada a pessoas que possam ter curiosidade mas ainda não queiram pagar um bilhete para um determinado concerto. É assim que estamos mais abertos à cidade.

Têm sentido um crescimento de público estrangeiro no festival, acompanhando o crescimento desta parte da população na cidade?

Sim, isso é visível. Mas dentro da comunidade estrangeira, sentimos que é mais facil para pessoas que vêm de sítios com habitos culturais superiores ao nosso, onde geralmente também há uma capacidade financeira superior da nossa. Para esse público, é muito fácil virem ter connsco e descobrirem o nosso trabalho. A seguir à pandemia então, esse crescimento foi bastante acentuado.

Falando agora do cartaz, sentem que é mais difícil programar agora ou há uns cinco ou dez anos atrás?

É mais difícil porque, se pudessemos, fazíamos uns cem concertos por festival. A oferta é muito maior, as nossas reuniões de programação são ricas em artistas que queremos trazer. Há muita coisa nova e boa. Tanto que nesta edição, apenas temos uns repetentes, que são os Deaf Kids, o que só mostra a quantidade de artistas que nunca cá vieram e que queremos trazer.

Sei que é algo que não gostas de fazer, mas o que destacas desta edição do OUT.FEST?

Acho que há pelo menos um nome que tem de ser destacado, que é o Yamatsuka Eye, o senhor dos Boredoms, que faz o concerto de encerramento do festival. O Yamatsuka Eye e os Boredoms foram sempre um dos nossos sonhos. Vimos uns vídeos de um concerto dele em Nova Iorque e ficámos sem palavras, tentámos logo que ele viesse cá. E tivemos sorte, foi possível. É um sonho tê-lo cá. Mas há mais, há concertoS que nós sabemos que vão ser incríveis, mesmo quE as pessoas não estejam há espera, como os Senyawa, os Deaf Kids. Os Guttersnipe ou as Deli Girls vão ser daqueles concertos que a malta vai ficar a falar depois. Mas há muita coisa mesmo. Eu acho que este é o melhor cartaz que já tivemos.

 

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