Sete anos depois, o Barreiro Rocks regressou à cidade. Muita coisa mudou, na música, na terra e até nas pessoas. Mas há algo que nunca desapareceu: a vontade de partilhar e viver a música na sua forma mais pura.
Pela primeira vez, o festival centrou-se maioritariamente na ADAO, apesar de alguns concertos e DJ sets terem lugar na Locomotiva. Esta era, talvez, a grande questão para muitos dos clientes habituais do festival: será que esta nova casa serve as necessidades e propósitos do Barreiro Rocks? E, no final da festa, a resposta é um claríssimo sim. Não só é um espaço que garante uma série de valências já estabelecidas, quer a nível de som, iluminação ou até de serviço de bares, mas também pela facilidade com que se circula no recinto, que mesmo praticamente esgotado, permite andar entre palcos e espaços de forma bastante tranquila.
Além do espaço, também o público se renovou. Provavelmente, para alguma parte dos presentes, este foi o primeiro Barreiro Rocks a que foram, o que é fantástico, é sinal de que as gerações mais novas têm interesse neste tipo de música e, acima de tudo, vontade de partilhar e experienciar muito daquilo que foram ouvindo ao longo dos anos sobre o festival. Por isso, foi com bastante alegria que observei como o público mais novo ou estreante se entrosou facilmente no espírito do festival, ou não fosse o Barreiro Rocks famoso pela sua hospitalidade natural, quase como se todas as pessoas que nos rodeiam sejam nossos amigos de infância, quando alguns deles conhecemos há dez minutos na fila para o bar.
Mas vamos aos concertos. A festa começou na sexta-feira, na Locomotiva, com um DJ set de A Boy Named Sue, com o objectivo de começar a receber o público para um copo ao final da tarde. À noite, e já na ADAO, coube aos Algumacena a árdua tarefa de inaugurar o palco Crooner Vieira, marcando o início dos concertos do Barreiro Rocks após vários anos. Creio que não podíamos ter pedido melhor dupla: Alex D’Alva Teixeira e Ricardo Martins entraram com tudo e deixaram tudo em palco. No final, percebemos. O Barreiro Rocks voltou. Aliás, nunca deixou de cá estar.
Seguiu-se Chinaskee, que se apresentou pela primeira vez em formato quinteto, tendo ainda feito alguma parte do set a solo. Um espetáculo visualmente potente e que chamou grande parte do público mais jovem. Logo a seguir, e para abrir o palco Party Fiesta, estavam os El Señor, vindos diretamente de Fafe e, como é certo e sabido, com Fafe ninguém fanfe. Foi uma explosão de rock puro e duro, musicalmente muitos bons e com uma prestação imaculada. Ficou o bichinho para ouvir mais, fica a dica para futuras edições.
No outro lado, os Sunflowers davam os primeiros acordes para aquele que foi um dos melhores concertos do festival. A banda do Porto apresentou-se pela terceira vez no festival, a primeira em formato trio, e a recepção foi maravilhosa. É uma daquelas bandas que foram feitas para tocar ao vivo, com uma presença muito forte e uma entrega total. Rumando novamente ao outro palco, temos a primeira banda da terra a dar o ar da sua graça, e nada melhor que os Pista para continuar a dança. Já bem conhecidos por estas andanças, entregam sempre uma performace estupenda, com um ritmo avassalador e colocando toda a gente a bailar.
Para fechar, e com chave de ouro, tivemos Vaiapraia, que nos presenteou com um concerto singular e belo. Cada concerto do Rodrigo é único, com uma energia e caracterização maravilhosa, deixando todo o público vidrado e em êxtase. Para fechar, ainda houve tempo para o DJ set de Candy Diaz, que saltou diretamente da bateria de Vaiapraia para os pratos na outra sala.

Sábado, segundo dia da festa, ainda em modo recuperação, mas pronto para o banquete que se antevia. A festa começou mais cedo, pelas 17h, na Locomotiva, com a estreia dos Escárnio, talvez a única banda que nunca tinha tocado em nenhuma das edições anteriores do festival. Contudo, mostrou bem porque ali estavam, com um óptimo concerto. Programados para tocar ali, estavam os Overdoses, mas devido ao cancelamento dos Samesugas, passaram para o programa da noite na ADAO (já lá vamos). Assim, houve mais tempo para o Dj set de Cooperativa Soundsystem, uma grupeta de rijos cá da terra que continuaram a festa por mais umas horas.
Já na ADAO, tivemos o conterrâneo Fast Eddie Nelson, um dos artistas que é sinónimo de Barreiro Rocks, a abrir as hostilidades. Um concerto excelente, como é seu apanágio, com destaque para o artista convidado, um tal de João Cabeleira, que é guitarrista numa banda que anda aí chamada Xutos e Pontapés. Peixe graúdo acompanhado de outros tubarões, num set frenético com algumas e boas covers pelo caminho. Tal como referido, os Overdoses ficaram com o lugar dos Samesugas, e nunca a frase “do azar nasce a sorte” encaixou tão bem. Deram, para mim, um dos melhores concertos do festival. Absolutamente magnético e hipnotizante. O público ficou rendido à banda de João Pimenta, que já tinha pisado os palcos do festival com os 10.000 Russos, Alto e Green Machine. Destaque final para a perfomance final de um flautista em tanga tigresa, que era também um dos guitarristas, e que deixou a audiência em delírio com o seu show. Alto concerto.

De volta ao palco Party Fiesta, os 800 Gondomar já espalhavam o caos. O trio de Rio Tinto, cujo o baixista, Fred, também toca nos Sunflowers, deram uma aula de crowd surf memorável e foi a rasgar do princípio ao fim. Hidratar com uma cervejinha e seguir para o próximo, que não é Barreiro Rocks se não sairmos de lá como se tivéssemos ido a uma aula de cross-fit. Ainda por cima se o que nos esperar a seguir nesta maratona de rock for os The Anomalys, um trio oriundo de Amesterdão, que em palco são uma verdadeira montanha russa sem travões. Foi um concerto arrasador e só de pensar no que Remy, o baterista, fez em palco, fico totalmente estourado. Que aula de rock n’ roll do bom, outro dos grandes concertos desta edição.
Estamos a aproximar-nos do fim mas sem antes desfrutar da onda dos The Jack Shits, uma das melhores bandas com homens em tronco cu. A entrega não ficou aquém daquela que já nos tinham oferecido há uns bons anos, noutra edição do festival. Mosh, crowd surf e muita dança. Tudo aquilo a que temos direito. Para terminar, os incontornáveis Los Chicos, talvez a banda que mais vezes tocou no Barreiro Rocks. E, como sempre, foi um estrondo, não fossem os espanhóis uma das melhores bandas ao vivo que podemos ver por aí. Além disso, continuam com uma energia como se tivessem vinte anos. Esplendido. Para os resistentes, ainda houve tempo para ouvir umas modinhas do Dj set Shimmy, outro dos clássicos do festival, que foi durante largos anos o DJ residente.
No domingo, para os sobreviventes ou bem comportados, ainda houve espaço para um momento de harmonia geracional, com vários elementos da Hey Pachuco! a agarrarem nos instrumentos e darem-nos aquilo que melhor sabem fazer. Anxiety Disorder e The Act Ups foram os pratos principais, com DJ set de Nuno Rabino para fechar.
O Barreiro Rocks voltou e veio para ficar. Resta-nos guardar as memórias e esperar ansiosamente pela próxima edição (parece que já existem uns nomes sonantes fechados, mas ainda está no segredo dos Deuses do Rock).
Fotografias: Nuno Bernardo, Pedro Roque e Vera Marmelo
