Eram quatro, agora são cinco. A Carlos Guerreiro, José Mendes, Luís Gouveia e Pedro Carmo, junta-se agora André Amado, para dar sangue novo a este colectivo de designers que, desde 2013, são os responsáveis pela identidade visual do Barreiro Rocks. Juntámos o quinteto e conversámos sobre o regresso do festival, a importância da comunicação visual e do processo criativo que atravessa gerações.
Vocês os quatro, durante vários anos, fizeram a imagem do festival. Agora o festival regressou e, com ele, têm um novo elemento neste coletivo criativo. Como é que tudo isto surgiu e aconteceu?
Pedro Carmo: Como é que surgiu os 4 Cães à Babuje ou como é que o André entrou?
Vamos ao início, então. Como surgiu tudo?
Pedro Carmo: Eu fui falar com o Picos ao Programa Jovens Músicos, no Parque Catarina Eufémia. Como a Iolanda tinha saído, que era quem fazia a parte visual do festival, surgiu essa oportunidade.
E isso foi quando?
Luís Gouveia: 2010, talvez?
José Mendes: Acho que foi antes de 2010.
Pedro Carmo: E o Picos gostou da ideia, começarmos a fazer e ficou assim para sempre. E agora, para esta edição, o Zé sugeriu o André para se juntar.
José Mendes: É algo natural na Hey Pachuco!. Eles tão a fazer o mesmo nas outras partes da associação. A ideia é trazer sangue novo, ter malta nova. Faz todo o sentido, não queremos ser uns velhos a fazer cenas para velhos.
Como é trabalhar com esta malta mais velha, André?
André Amado: Eu não estava nada à espera deste convite. Foi um privilégio enorme. Aliás, o primeiro contacto que eu tive com design foi com muitos dos posters do Barreiro Rocks. Então, para mim, é muito gratificante fazer parte disto. É uma honra mesmo. Eles, de certa forma, motivaram-me a seguir o interesse em design.

E como é ter a visão de alguém mais novo a entrar no grupo?
Carlos Guerreiro: É um grande motivo de orgulho saber que há sangue novo e que ainda há pessoas que acreditam nesta coisa chamada design. É bonito acreditar neste propósito.
Pedro Carmo: Nunca quisemos que isto fosse uma cena só nossa. Queremos partilhar com mais pessoas e ter ideias novas que surjam de pessoas diferentes. É isso que dá piada a tudo isto.
André Amado: E é muito o espírito da Hey Pachuco!. Este espírito de comunidade e de partilha. Eu digo sempre que tive muita sorte em crescer no Barreiro, e estar rodeado de uma comunidade criativa tão activa e vigorosa. A chama continua bastante vida.
O festival esteve parado cerca de cinco anos, e agora regressa. Acham que, mais do que nunca, é importante a parte da comunicação visual do festival, para atrair pessoas para o festival?
José Mendes: Acho que é importante, sim, mas creio que é a programação do próprio festival que acaba por chamar as pessoas. E este ano acabamos por ter aqui uma edição mais de celebração, com muitas bandas que fazem parte da história do festival. É quase um kick-off para a coisa arrancar novamente.
Pedro Carmo: Sim, este acaba por ser uma coisa mais íntima. O que também não significa que não venha gente de fora.
André Amado: Eu todos os dias encontro malta em Lisboa que vem ao festival mesmo pelas bandas, o que é um excelente sinal.
É sinal de que, mesmo que este ano não venham muitas bandas estrangeiras, continua a existir interesse no festival, pela sua história e importância.
André: Eu acho que a aura do Barreiro Rocks continua muito presente num certo grupo de pessoas que gosta de ir a festivais e a concertos.
Pedro Carmo: É a festa, é o ambiente.
Carlos Guerreiro: E nós ainda antes de fazermos a imagem do festival, já eramos fãs do festival. E acabámos por conseguir dar imagem a algo que amávamos. Eu acho que todos nós fizemos sempre a mesma coisa, mantivemos sempre o mesmo principio. Fosse o Fast Eddie Nelson ou os Black Lips. Criar algo inquietante, independentemente de quem vem vem cá tocar. E uma total liberdade, sempre.
José Mendes: E não há hierarquias. Se vires os cartazes, não percebes que são os “cabeça de cartaz”, porque para nós, não há.
Carlos Guerreiro: E fizemos sempre várias versões, cada edição do festival tem uns dez ou onze cartazes diferentes.
José Mendes: Até é algo que pode parecer contraproducente ou um erro de comunicação termos tantos cartazes. Mas é uma experiência que depois funcionou sempre. Diz Barreiro Rocks e tem sempre as mesmas bandas.
André: Eu cheguei a ligar para a Câmara para conseguir ter todas as versões dos posters. A edição de 2017, por exemplo, consegui todos.
Este ano, mantem-se essa multiplicidade de cartazes?
Carlos Guerreiro: Este ano decidimos ir por um caminho novo e criar uma tipografia diferente cada um, e juntar tudo num só cartaz. Assim as pessoas conseguem ver o toque e contributo de cada um na imagem do festival.
José Mendes: Há uma entrevista muito fixe com o Victor Moscoso, nos anos 60 em São Francisco, que fazia uns posters super psicadélicos que ninguém conseguia ler aquilo. Mas ele dizia que obrigava as pessoas a atravessar a rua, para ler o cartaz. E se tu consegues esse feito, tu já ganhaste a pessoa. As pessoas não se vão esquecer. Ninguém vai deixar de ir ao Barreiro Rocks se não conseguir ler o nome de uma banda no cartaz.
Luís Gouveia: O briefing sempre foi o mesmo: façam o que quiserem.




