Numa altura em que a experiência antropológica se torna progressivamente compartimentada, filtrada por sistemas digitais disponíveis 24/7, acontecimentos como o OUT.FEST tornam-se catárticos, e são a prova de que vale a pena continuar a acreditar na experiência coletiva.
Ninguém parece estar aqui por acaso. Parece-me apropriado dizê-lo. Há uma disposição muito própria na sensibilidade do público, que acolhe e abraça o que para outros se afigura frequentemente como esdrúxulo. Serão dezenas de pessoas. Aqui a escala é humana e por isso sente-se que estamos num lugar aurático, reverberante, particular.
Observo.
Haverá certamente artistas entre o público. Visuais, musicais, textuais; existirão certamente estetas e marginais (no bom sentido do vocábulo), os últimos a deixarem-se decifrar e capturar pelo Cânone. É assimetricamente bela esta excentricidade. Escuto. A espanhola Carme López recria a cartografia musical da gaita de foles, mítico instrumento há muito consolidado na sua Galiza. Imagino paisagens de granito, festividades celtas, aquilo que poderá ter sido o onírico cenário da sua infância e logo depois no meu ecossistema industrial, localizado a dois quarteirões universais daqui. Penso em Marcel Duchamp; o artista experimental e industrial que dizia não haver nada de mais belo do que uma hélice. Faz sentido que este festival aconteça aqui; como forma de fazer ressignificar uma cidade que em parte se acocorou com o fim da indústria. Durante 4 dias do ano, há mais de vinte anos, o OUT.FEST é o epicentro nacional da música industrial e exploratória.

As pessoas entram e saem. A escala é humana e por isso há um ambiente que convida ao diálogo, à partilha do sensível. Reconhecem-se vários rostos que percorrem diariamente a cidade, mas também há muita gente que vem de fora, do país e do mundo. Uma dessas pessoas é Vasco Macedo, investigador natural do Porto que reconhece no OUT.FEST um festival com propriedades muito próprias. “Esta é a quarta vez que aqui estou, precisamente por se tratar de um evento que me proporciona uma oferta musical que não encontro noutros lugares.” Vasco virá todos os dias, usufruindo de múltiplos concertos que flutuam entre o género musical drone, noise, a música eletrónica abstrata, o free jazz, entre outros. Apesar de conhecer alguns artistas do alinhamento, para o jovem investigador o estimulante é também “descobrir alguns nomes que nunca ouvi falar e que no final me assolam completamente”.
A noite é um organismo frio. Perto da linha do comboio, no exterior da rítmica e inconfundível ADAO, encontro o sorridente e entusiasta Robert Barry, jornalista musical britânico. O facto de Robert vir propositadamente de Londres para cobrir o OUT.FEST é reflexo do sucesso além-fronteiras que o festival já vai tendo:
“O OUT.FEST tem uma atmosfera muito positiva e convivial. É um festival muito bem organizado pela OUT.RA, uma associação cultural sediada no Barreiro, que desenvolve uma relação de proximidade com os espaços da cidade, com a comunidade e os artistas que atuam.” Destacando a “lineup” muito rica a cada ano, que o traz frequentemente de terras de sua majestade para escrever sobre o evento, Robert fica particularmente satisfeito de encontrar músicos que noutros anos faziam parte do público:
“Alguns dos melhores artistas que vi atuar aqui são do Barreiro, e o facto de anteriormente terem absorvido o ambiente deste festival torna-os particularmente conectados ao evento e ao público.”
O noise nipónico é audível no exterior. Regresso. No hall da ADAO, um antigo quartel de bombeiros fundado no início do século XX estão os “BBBBBBB”, um duo japonês que leva o público ao êxtase. A performance assume contornos épicos e no final há festivaleiros de culto que admitem terem estado perante um dos concertos do ano.

Medito. Este é o espaço-tempo do júbilo, do imaginário e da criação.
Penso em como é bom estar aqui.
